Sunday, June 05, 2011

[ENTREVISTA] Pedro Barroso

Porque os Grandes Tributos se fazem em Vida, o Eclectismo Musical presta homenagem a Pedro Barroso, um dos maiores Autores portugueses, com uma entrevista muito especial. Trovador de excelência, com mais de 40 anos de carreira, sempre com um espírito interventivo, acutilante e possuidor de uma mordaz ironia, a sua vida corre na tranquilidade de Riachos (Ribatejo), mas sem nunca deixar de ser um atento observador de tudo o que se passa nos nossos tempos.

Professor, fisioterapeuta, escritor, poeta, pintor, artista plástico, Músico, numa palavra, Iluminado. Sem meias palavras, sempre sem medo de dizer o que pensa, Pedro Barroso respondeu, com a frontalidade de sempre, às questões colocadas pelo Eclectismo Musical.

Ainda que tendo a consciência de não ser este um nome conhecido da maioria dos seus leitores, o Eclectismo Musical considerou que a Obra e o Homem, justificavam cabalmente este momento que, esperamos, sirva também precisamente para mais pessoas procurarem conhecer a extraordinária Obra deste grande Senhor da Arte em Portugal.

Eclectismo Musical (EM): Com pragmatismo, ainda que com algum sentimento de enorme injustiça, teremos que dizer que o Pedro Barroso (O trovador, já que existe um outro mediático via "morangadas” da TV) é um perfeito desconhecido para as novas gerações. O que diria a estes jovens (e outros nem tanto) sobre o seu legado?

Pedro Barroso: Venham assistir a um concerto meu e ficarão a saber como comunico e que recados trago na bagagem e na poesia que faço. Normalmente no fim vêm confessar a sua surpresa e ficam seduzidos, pois tenho tido provas de ser transversal e intergeracional.




EM: Para alguns (infinitamente redutores) o Pedro Barroso é o cantor popular da “perninha da menina”, para outros, uma espécie de eremita afastado dos círculos sociais, quem é realmente o Pedro Barroso depois de mais de 40 anos de carreira? 

Pedro Barroso: O menos «perninha da menina» que é possível – que nem faz normalmente parte do alinhamento dos concertos…- pois toda a minha obra de há 30 anos a esta parte é dedicada ao sonho de um mundo melhor, mais humano, mais solidário, ao amor pela história, às artes infinitas da intimidade e da ternura, ao erotismo, à intervenção - não panfletária, mas outrossim atenta e sempre procurando semânticas da inteligência e da sensibilidade… 

EM: Considera que o seu espírito inconformista, de constante intervenção social, por vezes mesmo de crítica mordaz, bem como a conotação política que lhe está associada desde os tempos das campanhas de dinamização cultural organizadas pelo MFA e posteriores intervenções cívicas, marcou, limitou e condicionou significativamente a sua carreira e a forma como as pessoas o vêem?

Pedro Barroso: Estou no ponto de vida e de carreira em que me estou absolutamente a afastar do que pensem e dos alinhamentos recomendáveis. Sou, existo e intervenho criticamente – basta. O meu corrosivo livro "o país pimba" é muito explicativo sobre isso. A ironia é uma arma letal. Um problema é que os verdadeiramente estúpidos e medíocres não a entendem. E os verdadeiramente culpáveis e corruptos percebem que é com eles, mas já perderam a vergonha há muito tempo.

Mas direi que sim – se tivesse aceitado condições político partidárias ou qualquer outro tipo de arregimentação visível ou oculta, provavelmente seria o ícone que a espaços referenciam em mim os verdadeiramente livres e independentes de critério, como vejo nos comentários que de mim fazem no youtube. Assim, sou um desconhecido, que para uns milhares de pessoas de sensibilidade é quase um guru da diferença e para os outros é absolutamente ninguém.

















EM: Ou seja, tal como por exemplo um Sílvio Rodriguez ou um Vítor Jara, ainda que com níveis de participação e história conjectural substancialmente diferentes, considera que dissociar a arte e o artista, das suas convicções políticas, é um exercício exequível? Ou, por outro lado, é uma tentativa que nem sequer faz sentido?

Pedro Barroso: Eu tenho dificuldades em controlar o Pedro Chora, o meu heterónimo pintor, por exemplo. O homem é louco e arrojado, não tenho mão nele… e muitas vezes acontece-me o mesmo com o Barroso, tenho de o travar para não ser tão chato e excessivamente palavroso gongórico e criptado na sua erudição. Sou cooperativista mas também sou pela propriedade privada. Não há partido em que me reveja e nas eleições esse meu não alinhamento diverte-me imenso, respondo apenas perante a minha consciência. Mas uma boa canção sobre a ternura humana, o entendimento da montanha, o sonho do futuro, não pode ter peias nem emblemas ou nunca seria livre

Nos antípodas, o artista engajado a uma força politica concreta, fica condenado a uma espécie de disciplina criativa e temática que, peço desculpa, mas, me repugna.


EM: O Pedro dizia, em 1999, que "Vivemos dias cinzentos. Dá vontade de voltar à canção de intervenção com ironia e rigor poético". Perante a actual situação do País, para além de iniciativas como a manifestação «facebook», onde marcou presença, considera possível voltar à canção de intervenção?

Pedro Barroso: Toda a canção pensada de forma profunda reflecte e faz parte da estrutura de onde nasce, isto é, a nação onde vive e cresceu a ideia criativa. Grande parte dos políticos actuais são aldrabões e oportunistas e não prestam. Precisam de ser enxotados e desconfiam dos homens da cultura como cães perigosos que podem expor a sua incompetência. Ser culto é uma forma de intervir – eles sabem disso e não gostam. Não é preciso uma canção dizer mata e esfola. Basta ter profundidade, tema, inteligência, humanidade, visão livre das coisas e ideias e já estará a ser de “intervenção” Mas que isto está a precisar de outro sistema e outra nomenclatura… está sim senhor!


EM: A propósito, qual considera ser o «estado d'arte» da música feita em Portugal? 

Pedro Barroso: Sei pouco do que se faz e não gosto da maior parte das porcarias que ouço na rádio e vejo na TV. Aprendi com o ZECA, fiz palco também com o Fanhais; o Adriano; Janita; o Vitorino; o Julio Pereira; o Fausto; o Tordo; o Carlos Mendes; o Paulo; o António Macedo. Bebi inspiração na Barbara; no Brel; no Becaud; no Aznavour; na Piaf; no Cohen; no Pete Seeger, eu sei lá quem é esta gente que hoje comanda os prémios e o tempo de antena todo que anda por aí…Nem quero saber, é-me indiferente! Vingo-me assim – eles não sabem quem eu sou e eu raramente também sei quem são estes modernos… 

EM: No entanto, a sua carreira é muito mais do que apenas músicas de intervenção ou de alerta e consciencialização social. Bastará recordar meia dúzia de canções de Amor, com «Menina dos olhos d’água» à cabeça e o peso da Mulher na sua Arte, na música, nos poemas, nos livros, na pintura (enquanto Pedro Chora, o "pré-verso") O Pedro é um eterno apaixonado?

Pedro Barroso: Gosto muito de alguns animais lindíssimos que há na natureza, sim. Entre eles o tigre da Sibéria, o cavalo lusitano e obviamente, a fêmea do homem – esse espanto da sedução e do capricho, esse ser da tesão e da beleza que é a mulher - quando sabe sê-lo… perdoem-me o humor, claro…

Uma mulher bonita fura a eternidade e faz poesia por si. Sou um enorme admirador. Assumo.




EM: Em 1987 escreveu: “é tão difícil encontrar pessoas assim bonitas / é tão difícil encontrar pessoas assim pessoas” (Música: Bonita) De lá para cá, o balanço que faz das pessoas que foi conhecendo é mais positivo ou mais negativo?

Pedro Barroso: Estão mais bonitas por fora. Fazem plásticas, piercings e depilam-se e tudo. Elas e eles. Mas por dentro… ai que longe de serem o que é preciso…eu é que aprendi talvez a seleccionar melhor quem me entra na intimidade.



EM: Vive na sua casa de Riachos na tranquilidade do campo, afastado dos grandes centros (“e digam por favor de onde nasce o sol/que eu basta-me o calor – para lá me voltarei”) A solidão da criação e da fruição dos dias é fascínio, opção ou, passe a expressão, falta de paciência para pessoas? 

Pedro Barroso: Muita falta de pachorra. E sou exclusivo e muito secreto também. Não facilito muito, confesso, a intrusão nos meus espaços. Gosto imenso de estar sossegado e fazer muito pouco. Por exemplo tenho imensa arte - escultura e pintura sobretudo - nas minhas casas. Se a pessoa que a visita não perceber as paredes que está a ver, para quê fazer amizade com um imbecil? Se não entende os recados que estão numa canção, e me disser apenas que está muito bem cantada e que tenho uma bela voz, para quê discutir com ela as intenções que presidiram à canção? Tenho lados de mim que são muito, muito selectivos e só experts poderão penetrar. Se o conseguirem fazer, ok, são suficientemente inteligentes e cúmplices para merecerem a minha amizade. Se não me percebem, então por favor também não me chateiem. Sou muito preguiçoso e gosto imenso. 

EM: Depois do «dramático» anúncio do final de 2010 sobre o seu abandono dos palcos, a verdade é que, em 2011, continua a poder ver-se, ainda que esporadicamente, o Pedro em concerto. Foram «os amigos» a convence-lo ou continua a sentir “fome de palco”? 

Pedro Barroso: Eu disse que terminava os grandes concertos, os de mais de duas horas sem intervalo. E acabei. Hoje faço concertos de uma hora. E trabalho o menos que posso. Mas o palco nunca se recusa, é um sitio mágico onde vivi os melhores momentos da minha vida.

















EM: Em 2009 gravou «Esperança» com a Tuna de Veteranos de Viana do Castelo. Como surgiu o convite?


Pedro Barroso: Eles contactaram-me, tinham uma versão; senti curiosidade e fui. Ficamos muito amigos.



EM: Perante a excelência e riqueza da sua obra, o exercício de escolher os seus melhores poema é algo extremamente difícil e ingrato. No entanto, «Excesso» é provavelmente a sua canção mais íntima, a que mais provoca “cócegas na alma”. Partilha desta visão? O criador consegue preferir algum dos seus “filhos”?

Pedro Barroso: "Nah" Há tantas coisas que gosto que era impossível. Mas há canções que ainda hoje me arrepiam e outras que me espanto como consegui fazê-las.



EM: Uma curiosidade, enquanto professor, orador e comunicador de excelência, o que lhe parece o presente Acordo Ortográfico, a que, alguns, chamam de Novo? 

Pedro Barroso: Um disparate sem sentido, com cedências que nem muitos intelectuais brasileiros compreendem!

EM: Que nome colocaria no seu "Festival de Música" ideal?

Pedro Barroso: "Esqueça tudo o que ouviu", talvez...ou "Vamos cantar baixinho", sei lá...



EM: O que está a criar neste momento? Podemos esperar algum material novo nos próximos tempos? 

Pedro Barroso: Deve chamar-se "itinerários do amor e da revolta"e está em gravação mas avança lentamente …talvez para o fim do ano se tudo correr bem. 

EM: Que mensagem deixaria às gerações mais jovens sobre o Futuro? 

Pedro Barroso: Leiam, fascinem-se procurem. Ouçam as coisas que ninguém ouve; e nunca achem que muito barulho equivale a muita razão - nem na politica nem na música. Sonhem muito. Vivam o vosso tempo e a vossa idade. Amem muito mas busquem o fundo do mar e o pico da montanha. Ouçam o Barroso, já agora, escondidos ao fim da noite, nem que seja em grupos clandestinos. Abracem o futuro com ganas de mudança. Criem outros políticos e outro sistema. Sejam sempre livres por dentro, que é o sitio certo para nunca ser agrilhoado.



"Nunca é tarde para sonhar..." Obrigado Pedro!

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Sunday, April 25, 2010

25 de Abril Sempre!














A canção de intervenção foi sempre uma arma, com a força e o talento de (entre muitos outros):

Adriano Correia de Oliveira

José Mário Branco

Fausto

Francisco Fanhais

GAC

Luís Cilia

Pedro Barroso

Todos juntos...Portugal Ressuscitado

Zeca Afonso


Acima da política a Arte! Todos estes grandes trovadores construíram carreiras sólidas na música portuguesa, quase sempre, despidos da sua vertente mais «intervencionista» e que vale muito a pena conhecer.

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Tuesday, December 15, 2009

"se quiseres partir amanhã..."



Simplesmente perfeito!

Letra:

Se quiseres partir amanhã
eu paro o mundo
com facilidade assim
com esta mão
e então descobriremos
o mais profundo fundo que há no mundo
que é no irmos fundo às coisas
que há razão
de verdades consumadas me consomem
de falácias bem montadas me alimentam
mas meu filho mora o reino do futuro
que é mais duro
e não vai ser com palavras
que o contentam

Se a morte lenta te rebenta sob a pele
a cada dia
e se no teu braço apenas sentes a força
de um cansaço organizado
mas manténs na tua fronte a dúvida
e o gosto pelo longe e a maresia
e se sentes no teu peito de criança
a alma de um sonho amordaçado
se quiseres partir amanhã
eu paro o mundo
com facilidade assim
com esta mão
e então descobriremos o mais profundo
fundo que há no mundo
que é no irmos fundo às coisas que há razão

(iste mundus furibundus falsa prestat gaudia
quia fluunt et decurrunt ceu campi lilia
Laus mundana vita vana vera tillit premia
nam impellit et submergit animas in tartara)*

(música e letra de Pedro Barroso
in Lp "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher",1987)

*retirado da versão original de Carmina Burana

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Thursday, December 03, 2009

Logo à noite no S. Luiz...

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Eclectismo Musical

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