Monday, November 29, 2004

O regresso do último grande artista...


Norte - Jorge Palma


O Natal de 2004, ficará para sempre ligado ao momento em que o último grande artista português desmistificou a ideia de que os grandes génios dependem de substâncias psicotrópicas para criarem e que sem elas o seu génio criador desvanece drástricamente.

Este «Norte» foi, nas palavras do próprio, o primeiro álbum produzido de forma totalmente sóbria. O Músico disse em várias entrevistas, que este álbum foi produzido num curto espaço de tempo, poucos meses depois de ter ultrapassado (felizmente) a sua adição ao álcool. Não tendo negado que passou por uma fase em que receou chegar à conclusão de que só poderia criar num estado alterado de consciência, o que, para enorme contentamento de todos quantos admiram o artista, não se veio a confirmar. Já que, este «Norte» é um grande álbum de Jorge Palma e será certamente um dos que ficará na história da música portuguesa, mesmo que, possa não vir a ter a exposição e reconhecimento público de outros registos anteriores, claramente inferiores enquanto álbum.

Do álbum fazem parte 13 novas canções e ainda 2 trechos jazzísticos escondidos no final do alinhamento. Num trabalho bastante equilibrado, torna-se díficil destacar alumas das faixas, mas pode-se dizer que «Passeio dos Prodígios»; «Optimista céptico»; «Os demitidos»; «Tama-ra» e «Valsa de um homem carente» têm tudo para se transformarem em clássicos.
Destaque ainda para o poema de Al Berto - «Acordar tarde» que na interpretação de Jorge Palma, ganhou uma nova dimensão e uma diferente abordagem.

Acordar tarde

tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte

procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer

irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia

Al Berto