Friday, November 05, 2004

De quien es la nuestra vida?


Mar Adentro - Um Filme de Alejandro Amenábar


Já anteriormente neste blog tinha sido feito referência a este filme de Alejandro Amenábar, a propósito de um dos temas da banda sonora com interpretação de Luz Casal, intitulado «Negra Sombra» .

Agora, depois de visto o filme, o tema interpretado por Luz Casal ainda faz mais sentido, tornando-se mesmo na involuntária banda sonora das reflexões que esta obra prima de Amenábar suscita.

Este é muito possivelmente o melhor filme espanhol feito até ao momento, contando com uma das melhores interpretações de sempre do cinema, de Javier Bardem.

Baseado em acontecimentos reais, «Mar Adentro» narra a história de Ramón Sampedro, um homem tetraplégico que durante mais de 28 anos lutou para conseguir uma morte digna e cujo caso desencadeou um grande debate social em Espanha. Sendo a Eutanásia proibida por lei em Espanha (tal como o é em Portugal e em quase todos os países europeus), Sampedro recorreu diversas vezes aos tribunais expressando o seu desejo de morrer legalmente, mas todas as suas tentativas foram totalmente inúteis.

Este é um filme muitíssimo comovente, maravilhosamente narrado por Amenábar, realizador que ficou conhecido com o filme «The Others», com Nicole Kidman. Em «Mar Adentro», Amenábar aproveita com mestria a sensibilidade do tema e através de uma excepcional direcção de autores cria um filme de uma enorme profundidade de sentimentos, de emoções, de interrogações, de dúvidas sobre os conceitos de vida, de morte, de disposição sobre a vida e morte, fundamentalmente, levanta interrogações como a de saber se a decisão de morrer de um tetraplégico será ainda o último acto de egoísmo, ou se por outro lado, será apenas o cumprimento de uma vontade pessoal de alguém que considera ter perdido toda a sua dignidade.

Recentemente foi, este filme, nomeado pela academia de cinema espanhol, como sendo o filme espanhol candidato ao prémio de melhor filme estrangeiro da academia de cinema norte-americana. Seria de inteira justiça que, Javier Bardem, depois de ter recebido já diversos prémios, como o do Festival de cinema de Veneza, fosse também ele nomeado para o oscar de melhor actor, pois, na verdade, o seu trabalho é das melhores coisas feitas nos últimos anos. Também, Belén Rueda foi um feliz descobrimento, com uma interpretação carregada de verdade, com uma expressão dramática surpreendente e com uma interligação perfeita com Bardem. Destaque ainda para a excelente fotografia e para a música original também da autoria de Alejandro Amenábar.

Um filme imprescindível.

Fica ainda aqui a letra do tema interpretado por Luz Casal e que segundo se apurou é uma das canções mais emblemáticas da Galiza, originalmente escrita por Rosalía de Castro(1837-1885) , e recentemente recuperada por Carlos Nuñez e Luz Casal, dois nomes grandes da música galega.

«Negra Sombra
Cando penso que te fuches,
negra sombra que me asombras,
ó pé dos meus cabezales
tornas facéndome mofa.

Cando maxino que es ida,
no mesmo sol te me amostras,
i eres a estrela que brila,
i eres o vento que zoa.

Si cantan es ti que cantas;
si choran, es ti que choras,
i es o marmurio do río,
i es a noite i es a aurora.

En todo estás e ti es todo,
pra min y en min mesma moras,
nin me dexarás ti nunca,
sombra que sempre me asombras»
Rosalía de Castro

Também o poema da autoria do próprio Ramón Sampedro, que é recitado nas cenas finais do filme por Javier Bardem, merece aqui destaque:

"MAR ADENTRO" (Por Ramón Sampedro)

Mar adentro,
mar adentro.

Y en la ingravidez del fondo
donde se cumplen los sueños
se juntan dos voluntades
para cumplir un deseo.

Un beso enciende la vida
con un relámpago y un trueno
y en una metamorfosis
mi cuerpo no es ya mi cuerpo,
es como penetrar al centro del universo.

El abrazo más pueril
y el más puro de los besos
hasta vernos reducidos
en un único deseo.

Tu mirada y mi mirada
como un eco repitiendo, sin palabras
'más adentro', 'más adentro'
hasta el más allá del todo
por la sangre y por los huesos.

Pero me despierto siempre
y siempre quiero estar muerto,
para seguir con mi boca
enredada en tus cabellos.